quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Bem vindos!!!

Caros leitores, para iniciar as atividades deste blog, sugiro a todos a leitura deste belo texto do jornalista Washington Novaes do Estado de São Paulo. Ele descreve um importante exemplo de prejuízo ao equilíbrio do meio ambiente no caso de extinção ou redução de uma espécie. Comentários serão bem vindos! Um abraço a todos, Thais.

Pelos caminhos do pequi e do junco
Começa-se pensando no cerrado brasileiro, chega-se aos mangues sul-americanos. Começa-se na Europa primitiva, chega-se à Ásia. O ser humano vai aprendendo que tudo está interligado no planeta - para bem ou para mal.Cientistas da UnB e da Universidade Católica de Brasília - relata Gustavo Faleiros em O Eco (10/8) - estão preocupados com a redução da variabilidade genética do pequi em áreas isoladas do cerrado, já que esse fruto é uma das principais fontes de alimento do lobo-guará, do cateto, da anta e de outras espécies (inclusive a humana). E sua hipótese é de que os morcegos, os principais polinizadores do pequizeiro, não levam o pólen para áreas mais remotas. Têm razão para se preocupar. Há anos a Embrapa Monitoramento por Satélite e seu diretor, Evaristo Miranda, vêm dizendo que só restam do cerrado brasileiro menos de 5% em áreas com possibilidade de sobreviver, com mais de 2 mil hectares contínuos - em fragmentos menores as cadeias genéticas e reprodutivas têm dificuldade para se manter.Talvez no caso do pequi possa haver outros componentes, relacionados com o nosso parco conhecimento sobre as espécies. Há duas décadas, o autor destas linhas acompanha esforços de pesquisadores para encontrarem formatos que garantam a sobrevivência do pequizeiro. Numa universidade, por exemplo, conseguiu-se produzir mudas de pequizeiro. Plantadas por este escriba há quase 20 anos, cresceram, mas não produziram flores nem frutos. Um índio do Xingu, Tabata Kuikuro, ao saber disso, comentou: "É porque vocês não sabem plantar, plantam com o caroço do pequi deitado, tem que plantar com ele de pé, nós fazemos assim" - e o Xingu tem pequi em abundância. Tabata prometeu e em sua viagem seguinte trouxe caroços de pequi do Xingu, plantou-os em Goiânia, onde já floresceram e frutificaram.Seja por que caminhos for, o Relatório Planeta Vivo 2006 , do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e do WWF, diz que "estamos deteriorando os ecossistemas naturais a um ritmo nunca visto na história da humanidade". E perdendo informações preciosas sobre as espécies da biodiversidade. O índice das espécies terrestres no planeta declinou 31% entre 1971 e 2003; o das espécies marinhas, 27%; o das espécies de água doce, 28%.Retorna-se aos antepassados humanos: pesquisadores da Espanha e da Itália, examinando 5 mil dentes de fósseis da Ásia e da África, concluíram que os primeiros hominídeos europeus (que comeriam eles?) podem ter vindo principalmente da Ásia, e não apenas da África (Estado, 7/8). Quase ao mesmo tempo, noticia-se que um neto do famoso navegador norueguês Thor Heyerdahl (falecido em 2002) repetiu a célebre expedição do avô: navegou numa jangada primitiva do Peru à Polinésia, em menos tempo.Thor Heyerdahl ficou famoso há 60 anos, quando, para provar sua hipótese de que o povoamento poderia ter ocorrido da América para a Ásia - ao inverso do que se afirmava -, juntou mais cinco companheiros, cortou árvores na Amazônia peruana, fez os troncos descerem na correnteza dos rios até o litoral e com eles construiu uma jangada rústica, contratou fiandeiras para tecer as velas e se meteu no oceano durante 101 dias, ao sabor dos ventos, com a embarcação cercada por tubarões. Depois de 8 mil quilômetros percorridos, chegaram ao atol de Tuvalu, na Polinésia - provando na prática a hipótese de Heyerdahl. Foi a célebre Expedição Kon-Tiki, tema de livros e filmes.Em 1998, nas suas memórias - Na Trilha de Adão, editadas no Brasil em 2000 -, Heyerdahl conta que depois da viagem à Polinésia decidiu fazer outra, da África à América Central. E quase morreu, porque os troncos da embarcação se encharcaram antes da chegada ao destino. Por isso, quando resolveu tentar, com o mesmo método, o roteiro Ásia-África, saiu em busca de informações sobre o junco, a madeira da jangada. E foi parar na Mesopotâmia, pátria dessa espécie, onde o conduziram até a casa de um homem de mais de 100 anos de idade, que se dizia saber tudo sobre o junco. Quando Heyerdahl descreveu o insucesso da viagem à América Central e lhe perguntou por que a madeira se encharcara - ela que permitira toda a navegação durante séculos, a "descoberta" de vários mundos -, o velho, serena e concisamente, respondeu: "Porque não foi colhido em agosto."Heyerdahl, em suas memórias, maravilhava-se com o encontro. E observava que um conhecimento tão precioso para a evolução humana - junco colhido fora de época encharca - se estava perdendo. Como a cada dia se perdem outros conhecimentos preciosos de povos ditos primitivos, à medida que seu hábitat é devastado.Thomas Lovejoy, uma das pessoas mais respeitadas na área da ciência, lembra que só o comércio de medicamentos derivados de espécies vegetais supera a casa dos US$ 200 bilhões anuais. Quanto valerá o repositório de informações contidas nos milhões de espécies que nem sequer foram estudadas? Quanto valerá a biodiversidade vegetal brasileira, entre 10% e 20% da planetária? Quando se levará a sério a proposta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) de desmatamento zero na Amazônia e forte investimento em ciência e formação de cientistas na área? Apenas 9% do PIB amazônico está relacionado com a biodiversidade, diz o cientista Charles Clement. Se a redução do desmatamento em 2005/2006 deve ser saudada, ainda cabe lamentar que mais 14 mil km2 dessa biodiversidade tenham sido perdidos em um ano; 700 mil km2 ao todo.Quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos? Segundo Carl Jung, são essas as três perguntas realmente fundamentais que devemos fazer. Mas é preciso que o entorno permaneça para que possamos responder; para saber por onde caminhamos ao longo dos séculos, com que recursos. E para onde poderemos ir, com tudo à nossa volta ameaçado.